Coaching x Psicologia: qual a diferença?

Volta e meia o assunto volta à mesa para discussão: Qual a diferença entre a Psicologia e o Coaching? Nos últimos dias, a motivação foi o marketing realizado por uma novela global da atividade de Coach. O fato causou revolta na comunidade de psicólogos por entendermos que a novela foi longe demais e mostrou o profissional de Coaching estendendo sua atuação para um campo que é de nossa competência. Mas afinal, quais são os limites de cada uma dessas profissões?

O que faz um psicólogo?

Entende-se que o psicólogo – referimo-nos aqui, em especial, à sua vertente clínica, i.e., psicoterápica – é um profissional capacitado para atuar com a elaboração do sofrimento psíquico. A partir da escuta qualificada das demandas do seu cliente, o profissional psicólogo vai auxiliá-lo a repensar comportamentos, sentimentos e pensamentos que estejam contribuindo para uma diminuição da sua qualidade de vida. 

Para isso, o psicólogo passa por uma formação universitária de 5 anos, ao longo dos quais estuda os determinantes biológicos, psíquicos e sociais do ser humano e técnicas específicas para lidar com questões como ansiedade, depressão, pânico, traumas, conflitos interpessoais e intrapessoais etc. Além da formação universitária, não é incomum que aqueles que decidem por atuar na área clínica se vinculem a uma instituição para aprimoramento técnico e teórico, realizem supervisão com profissionais mais experientes e completem uma pós voltada para sua área de especialidade.

Assim, poderíamos resumir que o psicoterapeuta é o profissional qualificado para lidar com sofrimento psíquico e transtornos mentais em âmbito clínico. Para outras distinções, como aquela entre psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, veja nosso artigo 7 dúvidas que todo mundo tem sobre Psicologia.

O que faz um Coach?

O Coaching não é uma profissão reconhecida pelo Catálogo Brasileiro de Ocupações (CBO) e não está vinculada a nenhuma formação universitária específica. Segundo os próprios institutos de Coaching, “qualquer um” pode ser coach – basta passar pelos cursos de formação e workshops que eles oferecem.

Segundo a Sociedade Latino-Americana de Coaching, o “Coaching não tem caráter clínico, nem é indicado para trabalhar transtornos psicológicos ou psiquiátricos. Seus procedimentos são sempre direcionados no presente e futuro, em objetivos específicos, com olhar na solução e não em identificar problemas”.

Não lida com traumas ou problemas passados; não aconselha nem faz diagnósticos. E, embora possa eventualmente ter uma função “terapêutica”, o foco da atuação do coach é na potencialização da capacidade produtiva do indivíduo – desenvolvimento da assertividade, melhora do trabalho em equipe, gestão e planejamento de carreira e formulação de metas e objetivos futuros. 

A presença do Coach na novela

Pois bem. Como dissemos no início, os limites que marcam a separação entre Coaching e Psicologia voltaram à discussão nos últimos dias por conta da propaganda da atividade de Coaching realizada em cadeia nacional pela Rede Globo. A emissora, através da novela “O Outro Lado do Paraíso”, tem feito repetidas divulgações do trabalho de Coaching, inclusive mencionando profissionais e institutos específicos, numa clara estratégia de marketing pago.

A trama mostra uma advogada que “realizou alguns cursos e workshops” utilizar técnicas de Coaching para solucionar casos judiciais por meio de Hipnose Ericksoniana e, até mesmo, tratar de questões relacionadas a abuso sexual de uma das personagens. Tendo sofrido abuso sexual na infância, essa personagem manifesta problemas afetivo-sexuais na relação com seu marido e é aconselhada a procurar um serviço de Coaching para lidar com essas questões.

A atitude repercutiu na internet e foi duramente criticada por diversos psicólogos, o que ensejou uma manifestação – branda – pelo Conselho Federal de Psicologia que considerou um desserviço a forma como o assunto foi abordado na novela. Na nota, lê-se que:

“o Conselho Federal de Psicologia (CFP) entende que a telenovela “O outro lado do paraíso”, por se tratar de uma obra capaz de formar opinião, presta um desserviço à população brasileira ao tratar com simplismo e interesses mercadológicos um tema tão grave como o sofrimento psíquico de personagem cuja origem é o abuso sexual sofrido na infância”.

Diz ainda que:

“É consenso no Brasil de que pessoas com sofrimento mental, emocional e existencial intenso devem procurar atendimento psicológico com profissionais da Psicologia, pois são os que tem a habilitação adequada. Isso é amplamente reconhecido por diversas políticas públicas, entre elas o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que empregam essas profissionais em larga escala”. 

(Clique aqui para ver a nota do CFP completa. Apenas outros dois Conselhos, o Regional de MG e do PR, também se manifestaram aqui e aqui)

O “interesse mercadológico”, referido pelo Conselho Federal, se verifica facilmente pela menção, explícita e repetida, do nome de José Roberto Marques, e do instituto que ele preside, o Instituto Brasileiro de Coaching (IBC). O profissional, naturalmente, ficou bastante animado com o marketing feito pela emissora, como se pode ver neste artigo aqui. Outros institutos e profissionais de Coaching também comemoraram a publicidade dada à sua atividade em inúmeros artigos, blogs afora, como se pode ver, por exemplo, aqui.

Outros, como o Coaching Psychology Brasil, ao contrário, foram críticos da postura da emissora. Manifestando-se da seguinte forma:

“Lamentável ver, em rede nacional, uma novela com tanta audiência prestando esse desserviço à população ao deturpar o papel do Coaching, ao exibir uma advogada e coach atendendo uma demanda típica e prioritariamente da Psicologia (serviço de psicoterapia).”

Confira a íntegra da nota publicada pelo Coaching Psychology Brasil clicando aqui.

Psicologia e Marketing

Queremos fechar essa reflexão subscrevendo integralmente à nota publicada pelo psicólogo Bruno Soalheiro em sua página de Facebook:

Publicidade é tudo no mundo, e isso independe de você gostar. Há 4 anos eu digo aqui que a psicologia não é mais valorizada pelo horror que a classe desenvolveu ao marketing. Horror que é abraçado e pregado pelo Conselho!

Marketing é uma arma neutra. Você pode usá-la para o mal ou para o bem, para esclarecer ou confundir. Mas a psicologia ignora o marketing.

Resultado: vemos uma vítima de abuso ser tratada em uma novela – de alta audiência nacional – por uma advogada-coach. (Wtf…????)

De onde tiraram isso? Da publicidade e marketing que o coaching faz enquanto a psicologia se cala.

A psicologia não vai calar a indústria do marketing. Ela tem duas opções: ou dialoga com essa indústria dentro do possível, ou vira as costas e deixa qualquer picareta ocupar seu lugar.

Nossos dirigentes escolheram o segundo caminho. O nome disso, me desculpem, não é resistência ao sistema. O nome disso é omissão.

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