A internação psiquiátrica como ruptura de vínculos afetivos

Escrito por Rosemari Gonçalves

Resumo: O livro “Dona Maria abre a boca” aborda as repercussões familiares do confinamento de uma paciente psiquiátrica internada no início dos anos 70, num hospital-colônia em Vargem Alegre – Barra do Piraí, Rio de Janeiro. Quase cinquenta anos depois, a autora e neta da dona Maria do título da obra, visita as ruínas do hospital desativado e recolhe depoimentos sobre um período da história da loucura brasileira para compor um recorte de sua infância e lembranças de família.

Resenha:

Em tempos de discussão sobre retrocessos na luta antimanicomial brasileira, o livro “Dona Maria abre a boca: Uma história de loucura e esquecimento” joga mais calor ao argumento pela não internação compulsória do doente mental. A autora encara o desafio de mergulhar nos escuros corredores do aprisionamento da loucura no Hospital Colônia de Vargem Alegre, que funcionou por quase setenta anos e foi fechado no início dos anos 2000 pela reforma psiquiátrica.

Hoje o prédio em ruínas é cercado de lendas urbanas nas falas dos moradores vizinhos. O livro traz fotos, depoimentos e pesquisa sobre o tratamentos terapêuticos no “Vargem” e uma cronologia da instituição e da loucura no Brasil. Discute ainda a quebra de vínculos familiares e toma partido contra o retorno da hospitalização e segregação social do louco.

“O confinamento do doente mental em instituições psiquiátricas sempre teve sua justificativa enraizada no entendimento de que loucura é contagiosa, corruptiva e ameaça a parcela sã da sociedade. Assim como a lepra na Idade Média era tratada com o simples banimento da pessoa infectada, a loucura é ainda no século XXI vista como um impropério lançado na cara do ser “normal” e do “comum”.

O louco desistiu de fingir sanidade num mundo em crise existencial”, defende a autora.

Escrita terapêutica

O ato de segregar permanece implícito nas conversas atuais sobre pessoas em situação de rua, onde circulam o marginalizado louco e o louco marginalizado. Nos CAPS – Centro de Atenção Psicossocial da política antimanicomial em vigor, a parentela do doente ainda investiga pela internação. Mas cabe discutir o que se revela apenas como impossibilidade de significação do humano num mundo caótico.

A esquizofrenia leva a um paradoxo de realidade em que, para sobreviver numa modernidade exaustivamente individualizante e tão cheia de hierarquias e contratos sociais, o louco seria aquele alguém incapaz de cumprir sua parte, portanto, não confiável, não imputável, não desejado e, portanto, segregado. Michel Foucault, ao tratar da loucura nos lembra que:

“A loucura, porém, não está somente ligada às assombrações e aos mistérios do mundo, mas ao próprio homem, às suas fraquezas, às suas ilusões e a seus sonhos, representando um sutil relacionamento que o homem mantém consigo mesmo”.

No livro sobre Dona Maria, esse “consigo mesmo” é vivido pela autora como um “desengavetar” da sua própria realização existencial. Dona Maria foi mãe, avó, analfabeta, lavadeira, alienada em manicômio e mistério para suas netas e netos. Por isso, a obra constitui escrita terapêutica.

Ideal de virtude

O livro não chega a ser autobiográfico porque vem recheado de textos poéticos atribuídos à uma avó que não aprendeu a ler. Entretanto, as reflexões sobre o silêncio imerecido, sofrido pelos parentes de dona Maria, aproximam o livro da temática antimanicomial em voga hoje.“Pensei em minha avó indo se esquentar um canto ensolarado no pátio, sem saber exatamente quem eram aquelas pessoas ou que tipo de conversa travar”.

Faz uma crítica da cronologia da loucura no Brasil ao listar os modos de enfrentamento institucional punitivo pelo Estado e pela Medicina secular, corroborando Vieira (2007), para quem a decisão sobre o destino dos loucos continua sendo uma orientação burguesa: “É nas instituições da monarquia absoluta, simbolizadas anteriormente através da arbitrariedade, que a ideia burguesa da virtude como um importante assunto de Estado se concretizará. ”

Ainda hoje, o Estado parece culpar – e punir – o pobre e o louco pelo seu empobrecimento e adoecimento. É nesta visão de uma Psicologia não-punitiva, mas restaurativa, do ser humano em seu contexto familiar, espiritual, emocional, e social, que “Dona Maria abre a boca” está sendo publicado em junho de 2019 em uma plataforma de auto publicação voltada para autores independentes (https://www.clubedeautores.com.br).

Referências:

VIEIRA, Priscila P. Reflexões sobre A História da Loucura de Michel Foucault – Revista Aulas; UNICAMP, 2007.

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Sobre a autora

Rosemari Gonçalves é psicóloga formada e pós-graduanda em Psicopedagogia Educacional. Foi jornalista de 1987 a 1999. Reside em Vila Velha desde fevereiro de 2019. Atuou em projetos sociais na Zona Leste paulista até 2017. Para mais informações, visite o Blog  e Instagram da autora.

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