O implante cerebral que te ajuda a lembrar só aquilo que você pode esquecer

Imagine se quando você tentasse aprender algo novo, seja o nome de uma pessoa ou a sua décima quinta senha de e-mail, seu cérebro recebesse um impulso elétrico. Esse empurrãozinho elétrico “assustaria” seus neurônios e os levaria a prestar atenção, aumentando a probabilidade de você recordar a informação quando precisasse.

Esse tipo de dispositivo neuronal implantável não é mais pura ficção científica – ou um episódio de Black Mirror. Cientistas desenvolveram um aparato que vai “cutucar” eletricamente o cérebro quando parecer haver risco dele esquecer uma nova informação. A tecnologia, que combina uma técnica chamada Estimulação Cerebral Profunda (ECP) com monitoramento em tempo real da atividade neuronal, melhorou em 15% a performance de participantes num teste de memória.

Na ECP, uma corrente elétrica é aplicada no cérebro via eletrodos implantados em locais estratégicos. O dispositivo ajudou a controlar tremores em pacientes com Mal de Parkinson e parou convulsões em pessoas com epilepsia severa. Cientistas agora estão explorando a efetividade da ECP no tratamento do Mal de Alzheimer. Mas os estudos iniciais dos efeitos da ECP na memória têm variado – alguns levaram à melhora na performance e outros resultaram em prejuízo.

Esses diferentes resultados parecem depender principalmente de onde e quando a estimulação acontece.

A pesquisa

Pesquisadores listaram 25 pacientes com epilepsia, os quais já tinham eletrodos implantados no cérebro, para monitorar suas convulsões. Eles usaram os eletrodos para medir a atividade neuronal enquanto os pacientes memorizavam uma lista de palavras. Depois, compararam a atividade cerebral dos pacientes relativa às palavras que eles se lembraram corretamente versus palavras que eles esqueceram. A atividade numa área do cérebro chamada córtex temporal lateral, que é parte do núcleo da rede de memória, pareceu predizer se o paciente mais tarde se lembraria ou não da palavra.

Os pesquisadores então desenvolveram um software que poderia dizer em tempo real se a atividade dessa área do cérebro estava ideal ou não para memorização. Se o software detectasse que o cérebro estava em um baixo estado de aprendizado, ele acionava um pequeno impulso elétrico para estimular a área. “Nós estamos induzindo atividade neuronal dentro do núcleo da rede de memória nas horas em que a rede está em repouso, mas não deveria” diz Kahana, professor de Psicologia da Universidade da Pensilvânia e chefe da pesquisa.

Apesar de o estudo ter sido feito em pacientes sem prejuízo de memória, a esperança de usar a ECP no tratamento de demência vem aumentando – especialmente porque os mais promissores testes farmacêuticos para o Alzheimer continuam decepcionando.

Próteses cerebrais para todos!

Embora a pesquisa até hoje tenha sido pensada para melhorar a memória em pacientes clínicos, a ideia de aprimorar a cognição naqueles de nós que só precisam de um pequeno impulso não está muito longe. Bryan Johnson, chefe executivo da companhia de neuro-tecnologia Kernel, disse que esses tipos de próteses cerebrais um dia poderiam melhorar a cognição de todos nós.

Fried, neurocirurgião da U.C.L.A (Universidade da Califórnia em Los Angeles), descarta a ideia de usar estimulação cerebral profunda para algo tão trivial quanto lembrar nomes numa festa. “Isso é uma tecnologia invasiva, desenhada para tratar prejuízos e aliviar o sofrimento de pacientes neurológicos; e é um procedimento médico que deveria ser guiado e regulado por um rigoroso critério clínico”, ele escreveu.

Kahana é mais aberto à ideia, entretanto. “Penso que existe muita preocupação sobre a tecnologia invasiva ser muito arriscada para ser implementada em larga escala. Você pode imaginar que as pessoas seriam relutantes em fazer uma cirurgia cerebral para colocar um dispositivo que melhoraria sua função cognitiva”, ele diz. “Mas a cirurgia cerebral para esse tipo de tecnologia está se tornando mais e mais e mais segura a cada ano. [Um dia], as chamadas ‘tecnologias invasivas’ podem se tornar suficientemente de baixo risco de forma que nem pensaríamos mais nelas como sendo invasivas”. Cirurgias cosméticas se tornaram uma rotina monótona – assim como cirurgias a laser. Mesmo assim, ainda pode levar um tempo para se acostumar com a ideia de uma cirurgia cerebral voluntária. Quem quer ser o primeiro?

Adaptado e traduzido de Scientific American.

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