Vai tudo bem com a saúde mental dos universitários?

Texto escrito por Rosemari Gonçalves

O paraninfo discursa, os aplausos ecoam e o formando se levanta para buscar o esperado “canudo” na sua colação de grau. Esses poucos passos até segurar nas mãos o merecido diploma é um momento mágico e carregado de simbolismo. Para trás ficaram o estresse emocional dos prazos apertados de atividades acadêmicas, especialmente nos dois últimos anos e estágios de qualquer curso superior. Mas, para chegar ali, os universitários desbravaram um território institucional que nem sempre foi de sucessos e sorrisos. Uma vitória a ser comemorada porque, para muitos deles, transtornos físicos e emocionais acompanharam desde sempre o esforço de concluir o ensino superior. Muitos se lembram de colegas que não conseguiram chegar à formatura.

Além da depressão, ansiedade, estresse, disfunções alimentares e psicossociais, a incidência de suicídios entre universitários está crescendo. Pesquisa de Dutra (2007-2008) revelou que 52,45 por cento dos estudantes de cursos de Psicologia de duas universidades e outras duas faculdades do Rio Grande do Norte pensaram em tirar a própria vida durante o curso, fenômeno chamado de ideação suicida. Na maior faculdade de Natal (RN), dos 374 jovens universitários entrevistados, 43 já tinham tentado suicídio e 48 admitiram vontade de morrer. 

Jovens brasileiros entre 20 e 24 anos que cometem suicídio representam a proporção 5,4 para cada 100 mil habitantes, sabendo-se que é nesta idade que a maioria dos jovens enfrenta vestibular e admissão nas universidades. A cada 100 mil jovens que tentam suicídio, 16 conseguem. As estatísticas escondem o número real porque não incluem aqueles que fracassaram na tentativa e as mortes que foram erroneamente tratadas como acidentes. Mundialmente ocorre um suicídio a cada 40 segundos (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2006). 

O que deu errado?

Mulheres pensam mais em se matar do que homens. A depressão também está associada, segundo pesquisas, ao abuso de drogas e álcool na fase universitária e a problemas relacionais anteriores ao ingresso no ensino superior. Almeida et al. (2017) afirma que “os jovens constituem um grupo social com características específicas, e por estarem saindo da adolescência e entrando na idade adulta, apresentam muitas vezes uma cobrança interna grande principalmente na forma como percebem a vida e uma externa representada em como a sociedade o considera”. 

Uma pesquisa feita por Cremasco e Baptista reuniu 77 alunos de primeiro e nono semestres de Psicologia em universidade privada mineira, com prevalência de mulheres (72,7 por cento) e destacou que, por acharem que vivem sob o olhar julgador dos adultos, jovens depressivos tornam-se indecisos e vulneráveis “à culpa excessiva, capacidade diminuída de pensar ou concentrar- se ou indecisão e pensamentos de morte recorrentes, ideação suicida sem um plano específico, tentativa de suicídio ou plano específico para cometê-lo” (CREMASCO; BAPTISTA, 2017). 

A escolha certa do curso superior também diminui a incidência de depressão entre universitários. Por isso é importante ter calma ao escolher sua profissão futura, ou seja, as dificuldades em dar conta do programa dos cursos podem ser amenizadas pela paixão da certeza de ter feito a escolha correta. O comportamento depressivo do jovem universitário não nasce entre os muros da universidade, mas é agravado pela ansiedade para com as contínuas avaliações. 

As causas apontadas são: a hostilidade entre colegas, as disfunções alimentares da extensa rotina acadêmica, a distância da família (quando o estudante tem de se mudar de cidade), a dificuldade de achar amigos para laços relacionais maduros, uma baixa frequência à religiosidade – se anteriormente praticada -, uma maior disponibilidade de meios para tirar a própria vida, transtornos psiquiátricos já existentes e estresse pelas incertezas socioeconômicas.

Em busca de sentido

Em um grupo de estudantes recebido para um serviço apoio psicopedagógico em uma universidade paulista, em 2018, o compartilhar de temas conflitivos em rodas de conversa contribuiu para relaxar as tensões das semanas de avaliações e entregas de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Os encontros semanais ocorreram durante seis meses e incluíram jogos e dinâmicas para criação de vínculo afetivo entre alunos de diferentes cursos, perfis e idades. O grupo não abordava o suicídio, mas obteve depoimentos sobre automutilação, problemas familiares, indecisão sobre a escolha de curso feita e exaustão emocional causando isolamento.

O jovem geralmente sofre esvaziamento do sentido existencial quando encara situações de bullying, cyberbullying ou abuso sexual, antes ou dentro do curso universitário. “Pensar o suicídio, fenômeno presente na história das civilizações, desde as mais remotas, de uma forma filosófica que rompa com um saber constituído na tradição científica, significa, sempre, uma tarefa árdua e complexa” (DUTRA, 2007). Heidegger também diz que o ser humano precisa dar um sentido, positivo ou negativo, para sua existência e que esse sentido se encontra na relação com o mundo. 

Dutra (2007) cita Feijoo e diferencia a angústia do tédio: “Na angústia, há um repetido esvaziamento do sentido que sustenta o movimento existencial cotidiano, e tudo, então, se mostra como possibilidade. No tédio, todo o campo temporal desaparece, o ser-aí não temporaliza mais, e o nada se mostra na total ausência de possíveis (p. 158)”. O que se daria então para o jovem que se depara com este “nada” provocador de um tédio tão profundo que é impossível configurar a si mesmo?

Dá para prevenir?

Sim. A fase final da adolescência encontra muitos jovens prestes a pisarem um terreno universitário e institucional apressado em rotular e formatar os impulsos da juventude – um habitat que gera transtornos mentais diversos em 15 a 20 por cento dos estudantes. Além disso, vão conviver com colegas de classe tão diferentes deles que sua autoestima será testada continuamente. Existem comportamentos que alertam para que se investigue a ideação suicida: o isolamento, a queda brusca de desempenho nas notas escolares, a auto exposição continuada a situações de altíssimo risco à vida (rachas de automóveis e provocação de brigas em clara desvantagem), o abuso ostensivo de substâncias químicas ou álcool e faltas repetitivas às aulas. 

Estes sintomas devem chamar a atenção dos professores e dos colegas e algo deve ser feito. Conversar sobre o assunto com delicadeza é prioritário. Para Santos et al. (in ALMEIDA et al.; 2017), a desesperança, a percepção distorcida de inadequação do próprio corpo e a dificuldade de pertencimento ao mundo universitário surgem pelas relações superficiais e amizades “coisificadas”, numa geração de jovens reféns das mídias sociais e mergulhados num mundo que passa por intensa transformação de valores e esquemas afetivos. 

Mas não dá para encaixar os casos num mesmo quadro explicativo. Então, se um estudante de curso superior ou qualquer adolescente dentro da rede escolar apresentar dificuldade de relacionar-se, mudar o comportamento para ações negativas e depressivas, isolá-lo é a única coisa a não se fazer. Cabe analisar o contexto de vida que está ligado ao comportamento e as fragilidades que são singulares a cada indivíduo. Daí a importante oferta de apoio psicopedagógico a universitários, testada em algumas entidades de ensino superior, com sucesso.

Fique por perto

Junho de 2018: dois alunos da Universidade de São Paulo tiraram a própria vida, segundo reportou o jornal interno da USP. Falando pelo Instituto de Psicologia USP (IP), a professora Maria Julia Kovacs disse que as universidades precisam ser mais sensíveis com o sofrimento existencial de seus alunos, embora seja difícil enquadrar os casos de suicídio em um único padrão e motivação. Outra matéria no mesmo jornal, em fevereiro, a psicóloga da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Maria de Fátima Aveiro Colares, acrescentou que a taxa de ansiedade aumenta muito nos cursos de pós-graduação pelo grande número de artigos científicos exigidos (CARDOSO; 2019). 

Em abril de 2018, na Universidade Federal de Minas Gerais um estudante de Engenharia Civil se suicidou dentro do campus. Para os professores as causas foram pré-existentes (saúde mental e questões familiares), mas reconheceram que a pressão dos compromissos acadêmicos acrescentou tensão. As questões de gênero e sexualidade, a maior permissividade das escolhas e a exposição a filosofias novas geram uma reorganização normal e positiva do ser. Tanta mudança também causa estresse e deve ser acolhida por serviços de apoio psicológicos dentro das universidades. Frases como “estou cansado de viver” ou “o mundo ficaria melhor sem mim” foram destacadas pelo Ministério da Saúde em campanha do Setembro Amarelo 2018 e são indicadores de ideação suicida.

Números oficiais

O Ministério da Saúde divulgou em 2018 novos dados sobre tentativas e óbitos por suicídio no país. Com relação aos óbitos, a intoxicação é a segunda causa, com 18 por cento, ficando atrás das mortes por enforcamento, que atingem 60 por cento do total. A Agenda Estratégica de Prevenção do Suicídio, lançada em 2017, ampliou a assistência em novos CAPS, implantar ligações gratuitas para o CVV em todo o país, além da qualificação dos profissionais que atuam no SUS. Em 2017, o número registrado foi cinco vezes maior do que 2007, saiu de 7.735 para 36.279 notificações. O Sudeste concentrou quase metade (49 por cento) das notificações seguido da região Sul, que concentra cerca de 25 por cento. O Norte foi o que teve os menores índices, em torno de 2 por cento.

O representante do CVV, Carlos Correia, enfatiza que o cuidado é extensivo aos familiares de que perderam filhos e parentes – “essas pessoas devem sempre ser acolhidas com atenção especial e receber acompanhamento profissional por um período. Os mais próximos são chamados de “sobreviventes do suicídio” e podem contar com o apoio de grupos especializados. Alguns postos de atendimento do CVV oferecem esse trabalho de apoio, o que na opinião de Correia é bom, mas não substitui o atendimento profissional.

Onde buscar apoio:

  • CVV – Centro de Valorização da Vida – disque 188 (a ligação é gratuita).
  • Universidades e entidades públicas.
  • Alcoólicos Anônimos e igrejas oferecem atendimento gratuito.
  • CAPS – Centros de Atenção Psicossocial e SUS.

Referências

ALMEIDA, Hélida M. D.; BENEDITO, Maria Heloisa A. e FERREIRA, Sávio B. Quebrando tabus: os fatores que levam o suicídio entre universitários. Revista de Pesquisa Interdisciplinar, Cajazeiras, no. 2, suplementar, página 647 – 659, setembro de 2017.

CARDOSO, Thaís. Características da universidade contribuem para adoecimento de estudantes / Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/ 28 de fevereiro de 2019.

CREMASCO, Gabriela S.; BAPTISTA, Makilin N. Depressão, motivos para viver e o significado do suicídio em graduandos do curso de psicologia. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, volume 8, no. 1, páginas. 22-37, junho 2017 Disponível em:<http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/eip/article/view/24293/20138.

DUTRA, Elza. Suicídio de universitários: o vazio existencial de jovens na contemporaneidade. Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, Natal, Rio Grande do Norte, Brasil. Revista Estudos e Pesquisas em Psicologia Rio de Janeiro, volume 12, no. 3, páginas 924-937, 2012. 

MINISTÉRIO DA SAÚDE. MACIEL, Victor. Novos dados reforçam a importância da prevenção do suicídio. Agência Nacional Ministério da Saúde. Disponível em: http://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/44404, 20/09/2018.

 

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